Amanda Fontenelli

"Eis-me aqui, ora pela metade ou em descoberta, uma tentativa, simples assim.. "




quinta-feira, 13 de maio de 2010

Desabafo espontâneo/instantâneo

É sempre difícil começar um texto, várias idéias nos vem à cabeça, cada uma poderia gerar excelentes discussões (como é bom conversar com aqueles que gostam de debater os porquês, as formas, as filosofias, os valores, simplesmente, questionar. É muito bom ter ao lado alguém com uma mente pensante, pronta para analisar desde o porquê das cores, ao por que da vida, o questionar do nome das coisas: “porque cadeira se chama cadeira?” às mais profundas questões da alma: “para onde vamos?”).

Enfim, deixarei o pensamento vir, brotar, ser natural, tentar escrever aquilo que me vier a cabeça, como uma sucessiva extensão do que sou, do que penso, do que consigo imaginar: até então, vivi acreditando que era relativamente “questionadora”, estou sendo sincera aqui, por favor não julguem, deixem o julgamento fora desta página, questionadora, no sentido de não aceitar, ser sempre desconfiada com as coisas, elas são sempre muito dadas, impostas não poderia se certo, ao menos deveria me proteger, interrogando-as para conhecê-las melhor, pura prepotência, um modo de gostar da brincadeira com os significados das coisas, mas, de uns tempos para cá, já havia percebido que meu “pensar” era lugar comum, nada de mais, repetição do que já fora dito: mais uma se arriscando, ou melhor, se atrevendo a escrever, a falar, a opinar, a meter o nariz aonde não foi chamada, mas hoje, sempre o hoje, tive certeza.

Certeza de que sou alienada, completamente: vivo fechando os olhos, na tentativa de garantir maior segurança, insensato não é? Pois é, mas a mente humana tem dessas coisas, o ilógico é chamado de raciocínio, as loucuras de ciência, os resultados e justificativas mais loucas de “cientificamente provado”, desse mesmo modo, não poderia eu, (simples garota, uma burguesinha, “pseudo-intelectual”, iniciante na caminhada de analisar a vida, descobrir as coisas...)agir diferente, nessas horas admiro mulheres como Joana D’arc., modelo inalcançável, para uma “pobre mortal” como eu.

Pois bem, sendo o que sou, me alieno, e acredite por escolha própria, é melhor viver assim, sem saber os efeitos dos meus atos na vida alheia, no mundo, no “efeito borboleta” do outro lado do mundo, mas principalmente, saber como minhas escolhas afetam, a minha vida (sim, não temos total consciência do poder de nossas decisões e de suas conseqüências em nós mesmos), sua vida, caso você leia, não estou sendo convencida, mas tudo interfere em nós, no nosso “limiar de pessoa” (simples expressão, deixa eu explicar, o mundo é algo parecido como uma teia de aranha, cada fio que compõe essa teia representa uma pessoa, uma escolha, enfim, que vai desencadeando outras teias, até não se saber mais, quem originou quem, entendeu?), logo, sim, quando você opta por deixar de ver televisão, ler outro blog mais legal, ficar no Orkut, ou no MSN, para ler meu texto, sim, estou fazendo diferença em você, porque, por mais idiota que você ache meu texto, ele interfere no seu “pensar”, ou moldando-o para algo novo, ou reafirmando-o em dadas crenças ou alimentando sua alienação.

O fato é, não sabendo quem sou, fugindo constantemente dessa tarefa, deixando-a escapar às vezes (estou sendo muito gentil comigo mesma, porque são poucas, mas poucas, vezes), quase nunca, atividade cada vez mais rara, deixo-a fluir enquanto dirijo, enquanto durmo (momento em que me inconsciente discute com meu consciente para processar os dados resultantes das minhas frustrações, felicidades, rotina, desejos, etc.), enquanto tomo banho, almoço, vejo TV, enfim, em poucas ocasiões (sempre algo meio acidental, do tipo “ops, tava prestando atenção na professoras, mas agora estou pensando no que irei fazer quando acabar aula, como serei daqui 30 anos, o que quero da vida, se o céu pode ser medido..”), nunca dediquei tempo exclusivo à arte de pensar, sim é uma arte,(como queria ser uma artista, já falei para vocês como sonho em pintar quadros, estudar cênicas, viajar pelo mundo, tentar entender as belezas mais discretas e ao mesmo tempo mais gritantes, mais escandalosas, é, a verdade é assim, simples mas escandalosa, como: ela é assim, enigmática, porque a escondemos (no dia-dia, no capitalismo, no socialismo, nas ideologias baratas, naquilo que achamos natural mas não deveria ser) quando estávamos no paraíso, Adão e Eva fizeram esse favor, e claro, dócil, como o escândalo de uma rosa se abrindo.

Bom, vejo que estou me prolongando, mas pensei “o melhor jeito de tornar um texto rápido e fácil de escrevê-lo é deixá-lo nascer, brotar, quase pronto”, apesar de ele já estar pronto, (acredito cada vez mais naquela teoria doida do Lost, não sei quantos aqui são viciados como eu, mas faz sentido, as coisas simplesmente já aconteceram, porque tinham que acontecer, o destino é destino, temos que aceitá-lo e nos divertirmos com ele, ao invés de envelhecermos lutando para que as coisas sejam do nosso jeito, porque elas já o são, o medo de que elas não sejam como deveriam ser, de que não façamos o papel que devemos cumprir, é que nos torna tão velhos e alienados).

Alienada e covarde, fujo do silêncio, a cada dia uma nova tentativa: exercitar o silêncio no carro, parar de colocar músicas exaustivamente barulhentas ou até mesmo “calmas” como as musicas clássicas para escutar enquanto dirijo, estudo, tomo banho,enfim, para então: ler, tocar, viver, experimentar o silêncio, o silêncio dos objetos, da verdade, do meu ser, da cor do meu ser, da cor do meu coração, do meu viver, (que cor eu sou?que cor minha alma tem? Que perfume meu viver transborda? isso não é poesia, é literalidade, sim, já pensou sobre isso?Que cor, cheiro, textura você tem?), sim,quero me encarar, e tenho fugido, porque sou covarde, tenho medo do que encontrar, medo do que tenho de enfrentar, e me escondo, nos discursos políticos, nas discussões sobre a emancipação feminina, nas músicas, no dia-dia, na correria mesmo, no curso de inglês e espanhol, na natação, numa ligação, tudo é artifício para afastar do meu campo de visão a verdade: a maior e única discussão válida para qualquer época, qualquer momento, idade, temperamento, inteligência, humor, coração, caráter, enfim, é:“quem somos nós”? Conhece-te a si mesmo: o primeiro pilar da filosofia, não é à toa, né?

2 comentários:

  1. foda demais!
    adoro esses textos em que as pessoas simplesmente escrevem, deixam fluir o pensamento. admiro tua coragem de se expor. e no fundo estamos no mesmo barco. em alguns momentos pensei estar "me lendo".

    isso foi foda, foda mesmo!

    "nunca dediquei tempo exclusivo à arte de pensar, sim é uma arte"
    Me sinto mais artista cada vez que consigo transcrever meus pensamentos para meu blog. me sinto artista agora que consigo enxergar com tanta transparencia suas palavras.

    E sim, ler seu blog já me torna alguem diferente. esse é um daqueles textos (grande, de fato) que se tornam inspiradores.

    aplausos a amanda! porque ela merece! parabens garotinha! :*

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  2. Suas palavras possuem o poder de mover as estruturas da minha vida. Por meio das suas palavras vivo um processo de mudança de mentalidade. Obrigado por continuar escrevendo.

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