Amanda Fontenelli

"Eis-me aqui, ora pela metade ou em descoberta, uma tentativa, simples assim.. "




segunda-feira, 31 de maio de 2010

Carta ao remetente

Querido (a),

Há muito tempo não nos falamos, na verdade, foram raríssimas vezes que nos encontramos, conversamos verdadeiramente, cara a cara, eu e você, estamos nos evitando, eu sei, e gostaria de pedir desculpas, pela minha covardia, pela minha fuga, pelo meu de repente, por aquele dia, nem me lembro com detalhes, sei que deve ter acontecido, no meio da minha vida, no meio da sua, da nossa, acho que fazia sol, estava quente, aquele ar pesado, os olhos, meu olhar, meu pensamento, o seu, você, (silêncio), preferi correr, uma tentativa de não ser, de fugir das imposições do fato de estar vivo, de viver, respirar, ocupar um corpo, ter uma mente, um coração...

Enfim, hoje, (sempre o hoje, não é meu amor?) decidi, resolvi não te deixar ir, me escapar novamente, o que importa é que resolvi voltar, te reencontrar, apesar de suas certezas, de sua sabedoria quanto ao que aconteceria, obrigada pela paciência, pela onisciência, pela presença, pelo “observar de longe”, “cuidar, guiar no escuro”, muito sincero, muito humano.

Os últimos dias foram bonitos, (te deixarei a par, daquilo que já sabe, mas que prefere ouvir de mim, com todo carinho), esse é o único adjetivo que poderia usar, teve poesia, amor, docilidade, muita feminilidade, (quase um filme estilo Almodóvar, claro com muito exagero e pouca modéstia, com sua visão feminista sobre o poder das mulheres em serem o que são, de carregarem consigo mesmas a beleza, a delicadeza, a inteligência emocional como diriam alguns alunos de psicologia (*), o que há de singelo no raciocínio feminino, na maneira de ver a vida), bom, os dias tiveram verdade, é o que posso afirmar, um pouquinho de mim, da minha essência (recém: descoberta, querida, protegida, minha nova conhecida, estamos lidando bem uma com a outra, o começo está doce, como deveria ser.)

Estou indignada querida (o), as pessoas estão (desta vez serei flexível, darei uma chance para elas se defenderem, elas não são, é muito duro afirmar que as pessoas são, até porque se tratam de defeitos, elas estão, é uma fase, um período, pelo menos, assim espero) cegas, não querem ver, e acreditam que a mentalidade atual é a sanidade (individualidade, meu caro), porque louco é o amor, sim, pois, dividir vidas, defeitos, fracassos e derrotas, ser o que se é sem máscaras, abrir, melhor ainda, escancarar a porta da sua vida pessoal para que outro acesse sem restrições ao seu lar, à sua intimidade, construir um futuro sem certezas, sem controles, sem garantias, sem contratos e regras, só pode ser loucura e das maiores, (silêncio), estávamos longe um do outro, por isso quero falar, você me deixa falar?

Consegue se lembrar daquele dia, em que nos olhando nos olhos, nos cumprimentamos com carinho, trocamos até elogios, como me sentia bem, você estava linda(o), impecável, os olhos alegres e de uma cor que só lhe pode ser única, sua, claro, castanho, ora escuro, ora claro, ora um mar de cores, de tons terra, tons vívidos,(respiração leve e mais duradoura, e um sorriso nos lábios que só os apaixonados sabem fazer sem perceberem que estão sendo notados), pois bem, ali, naquele instante, o qual na prática deve ter durado segundos, mas nos pareceu uma eternidade, dado o tamanho de nossa intimidade naquele momento, eu decidi, ser eu mesma, assumir as conseqüências por estar viva, por ser quem eu sou.

Num romantismo doce e livre que me abateu nos últimos dias, tive fé, fé em mim, em você, pois acredite, eu sou única e você me acompanha nisso, pois quando ouço uma música que me faz sorrir, olhar pela janela do carro e me sentir livre para seguir sem rumo, pegar uma estrada e enfrentar sabe se lá o que vem pela frente (eis a benção de Deus, esconder-nos o futuro, pois é muito mais gostoso não saber o que vem em seguida, o gostinho da adivinhação e da expectativa é insubstituível), me sentir em mim mesma, em nenhum lugar, exceto no que de fato me encontro, ouvir um jazz, cuja letra cada ouvinte monta, decide, interpreta, (é o ato de colorir, porém fora das linhas do desenho impresso no álbum de pinturas, esperando para ser pintado), cada dia em que se ouve dada música é uma nova possibilidade, pois é um novo espírito, é uma nova pessoa, nunca é o mesmo ouvinte, sim, tenho me aconselhado, me baseado no pensamento de Heráclito (princípios: tudo é movimento, nada pode permanecer estático, tudo fluí, “não pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”).

Em suma, você, minha alma gêmea, meu ser, meu próprio eu, te escrevo para garantir-lhe: ainda há esperança, para mim, para nós, para a humanidade, caso ela se permita ser louca (ir contra a maré, nadar nos sentimentos, na paz, na ausência de controle, no dia após dia, nas cores, no céu, nas pessoas...).

E aí, vamos ser loucos?

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