Amanda Fontenelli

"Eis-me aqui, ora pela metade ou em descoberta, uma tentativa, simples assim.. "




terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Os melhores do mundo


“EU ME CONTENTAREI COM O MELHOR”, OSCAR WILDE.



A mentalidade do mundo nos remete a idéia de que devemos ser os melhores (sempre, os melhores do mundo), de modo que somos levados a pautar nosso autoconhecimento em nossas conquistas, as quais são quase “padronizadas”, gerais, pois o valor de cada uma delas é dado pelo status que confere ao individuo que a alcança, ou seja, logicamente, a maioria das pessoas desejará aquilo que proporciona maiores reconhecimentos.



O vestibular ilustra essa faceta muito bem, os cursos mais concorridos são os considerados mais “dignos”, pois possuem mercado de trabalho “bom”, cheio de empregos e oportunidades, salários altos e o reconhecimento da sociedade para o trabalho exercido (ou seja, considera-se que tais profissões contribuem mais para o desenvolvimento da sociedade).Tal maneira de enxergar as coisas é tão séria e concreta em nossas vidas que muitas vezes nos permitimos ser complacentes com ela.



Contudo, esse perfil ilusório da filosofia atual (mais uma vez o pensamento marxista: filosofia que surge pelo modelo econômico, que visa o lucro máximo e alienação total dos indivíduos, pelos valores sociais, período histórico e muitos outros fatores) leva a sociedade (em todos os setores) a distorcer os valores, descartando aqueles que de fato deveriam ser considerados.



Não é difícil encontrar exemplos, na própria política temos inúmeros casos de políticos que se perdem na “arte da política” (na qual negociação e alianças viram desvio de verbas e manipulação das instituições públicas), em Brasília, o mais recente escândalo (Arruda e Paulo Octávio) apresenta a deterioração, antes de mesmo do sistema político brasileiro, da figura humana, pois antes de serem políticos, os envolvidos no caso são homens que seguem a mentalidade do lucro máximo, do status e do poder político (paliativos usados para tampar o vazio existencial criado pela ausência do verdadeiro conhecimento sobre nós mesmos).
A dificuldade de descobrirmos nosso real valor se dá pela mentalidade capitalista que valoriza não o que de fato somos, mas aquilo que aparentamos ser, vivemos na era em que somente ter (dinheiro, beleza, “fama”, muitos “amigos”, vida agitada e “inteligência”) não nos torna “especiais”, o importante é aparentar ter, o que de fato interessa é o reconhecimento alheio (reconhecimento de todos os critérios citados como parte de nossa personalidade).
Em suma, eu sou o que o outro “pensa” que sou, não interessa minha própria opinião sobre mim mesma, é uma situação extremamente decadente, eu só existo se o outro reconhecer minha existência?



Bom, o que a política e o vestibular têm em comum: o homem ao se sentir inseguro de suas capacidades se apóia naquilo que lhe proporcione maior afirmação, maior certeza de suas qualidades, porém, pecamos em achar que é a conquista em si mesma que representa o “nosso melhor” (de modo que carregamos todas as nossas vitórias como provas de que somos “os melhores”), haja vista que na verdade a conquista é um lembrete, o qual nos recorda nossas superações, nossas vitórias pessoais contra nós mesmos.



Quando estudamos para passar numa prova, quando nos preparamos para qualquer desafio nos vencemos diariamente, pois deixamos a “lei do prazer” de lado, abrindo mão de uma série de “prazeres” (sair com os amigos, assistir a um programa de televisão ou uma convidativa tarde sem fazer nada) para estudarmos, para treinarmos, e nos vencermos, pois assim crescemos rumo ao objetivo proposto, muitas vezes não o alcançamos na primeira vez, outras nem sequer o alcançamos, mas que chegamos a um lugar melhor do que estávamos, de fato, chegamos, pois amadurecemos.



Em suma, Brasília vive um exemplo da imaturidade humana, pois ao ter acesso ao poder, ao status, muitos deixam se seduzir (“parece cocaína, mas, é só tristeza”), pois a sensação de satisfação e de completude apesar de ilusória é convincente, e em seguida, as conseqüências chegam.



A carta do governador José Arruda em seu pedido de afastamento: “Diante da gravidade dos fatos, peço licença do cargo de governador do Distrito Federal pelo tempo que perdurar esta medida coercitiva, para não transferir a Brasília e a sua população a agressão que fazem contra mim e ao cargo que legitimamente exerço, eleito que fui pelo voto popular”, além de em outros trechos se referir a seu processo como “recurso utilizado pela oposição para lhe tirarem do governo”, me chamou a atenção, pois mostra como a mentalidade do “mundo” é capaz de nos convencer de que deve ser valorizado “tudo que é passageiro”, em uma escala tão grande, de maneira a nos fazer não perceber nossos erros e ter a capacidade de nos achar no direito de fazer exigências, ou seja, Arruda, apesar do erro enorme que cometeu (ilegal ,crime), em sua carta, deixa claro que não se preocupa em nenhum momento em pedir desculpas como já fez uma vez (chorar e pedir perdão ao povo pela fraude do painel eletrônico, cujo objetivo era alterar a votação), mas se prende apenas ao “jogo político”, tratando todo o escândalo (“receber dinheiro para comprar panetones para dar aos pobres”) como “ossos do ofício” de um político.



Todavia, numa coisa ele tem razão, o povo tem sua “responsabilidade” (culpa não, como Hannah Arendt mesmo defende, culpados são aqueles que cometem o delito e responsáveis são aqueles que nada fazem para mudar a situação) haja vista que ao exercer o maior símbolo da democracia, o voto, escolheu Arruda como governador.



Diante disso tudo, descobri uma Amanda que participa muitas vezes da caminhada em prol do status, mas vi também uma Amanda que em outras tantas vezes é original e segue seu próprio caminho, na busca pelo autoconhecimento, com seus valores, e que de certo modo está respondendo uma pergunta que lhe fizeram: “onde está sua coragem?”, está aqui dentro, dentro de mim, dentro do meu peito, dentro da minha cabeça, no meu ser, pronta para ser chamada, pois “não há confiança sem coragem”, né?



Ou seja, é impossível não fazer parte da mentalidade atual, porém, podemos lutar da melhor forma possível contra sua influência em nossas vidas, “não seguir a corrente, simplesmente...”.


Logo, percebi que não quero ser A melhor das melhores, quero ser A melhor que posso ser, quero ser o meu melhor, a melhor AMANDA que consigo ser, e que os outros reconheçam a melhor que posso ser, não como a melhor (mais linda, mais inteligente, mais legal..) mas como a melhor Amanda que consigo e sou capaz de ser, todos os dias.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Moby - Extreme Ways





Alguns dias sem escrever (quase uma eternidade para mim, acho que até perdi a prática, aquela que ainda nem ganhei) e muita coisa para contar. Assim, hoje, gostaria de escrever um texto sincero, mais verdadeiro (como um daqueles textos “inspiração”, que escrevemos de uma só vez).


Os últimos dias foram intensos (como num filme cuja história do personagem principal muda drasticamente numa cena), viajei para Pirenópolis ("Cidade dos Pireneus", município histórico do estado de Goiás), e lá encontrei: cachoeiras, profundidade, meus medos, “salve geral”, amigos antigos, o céu mais estrelado, limpo e lindo dos últimos tempos, música de raíz (algo meio afro, estilo Olodum, muito tambor, batucada), viagem gostosa, bonita paisagem e muita intimidade.


Nesses dias, percebi que cada um tem sua história e é justamente na convivência que nos aproximamos de verdade das pessoas, para então sermos capazes de senti-las, de modo que mais do que tudo na vida devemos nos abrir para ela, por mais clichê que seja: “o caminho só existe quando você passa”.


De fato, o caminho a ser trilhado não existe no futuro nem no passado, mas no tempo, pois é no tempo real, no hoje, que a vida acontece, é nele que definimos a trilha, obstáculos estarão presentes (realizações e frustrações), porém, a fé é necessária, não me refiro à fé católica (a qual almejo tanto), mas àquela que é a esperança, a qual nos move, nos faz acreditar no amanhã, ela não é utópica, mas, é capaz de nos fazer sonhar novamente após a desilusão, nos faz desejar sempre a felicidade, por mais que a tristeza se faça presente, é a fé que não é ausente nem no suicida, exemplo maior de “desesperança” (seguindo a teoria de que o suicida se mata para se livrar do sofrimento, por não encontrar nenhuma saída palpável, ou seja, ele perdeu a esperança naquilo que é “prático” e crê na esperança mais sombria de todas, mas ainda crê).


Enfim, a reflexão acerca do caminho x construção da vida me veio nos últimos dias, pois como na análise simples, porém, de certa forma, profunda do filme “sim, senhor” (filme que reflete sobre as oportunidades que perdemos ao dizer não e as possibilidades que ganhamos ao dizer sim, ao irmos contra nossa resistência natural ao desconhecido), a minha postura diante da vida tem sido em direção ao exercício de arriscar, e a viagem representou essa aposta, pois sem saber como seria (chata ou muito divertida) a enfrentei.


Dessa maneira, tive uma das melhores experiências da minha vida, haja vista que ali, passando por cima dos imprevistos, dei o meu melhor, tentei deixar toda energia negativa nas cachoeiras, como todas que estavam comigo, pois cada uma tinha um “problema” em Brasília que gostaria que não existisse (como era impossível, tentamos esquecê-lo ao menos por alguns dias), e assim o foi.


Em “piri” vimos vários exemplos de simplicidade entre seus cidadãos, exemplos de quem tenta ganhar a vida, criando oportunidades (vendedores de pulseiras, bugigangas, porteiros), nos mostrando quão alienados somos ao desejarmos status que não nos farão mais felizes, todavia, a situação que mais me chamou atenção foi aquela que me “colocou na parede”, via alguns pulando a cachoeira (correndo o risco – por mínimo que seja- de baterem em alguma pedra, mesmo sendo conhecedores do local) e me admirava muito essa coragem, de se jogar, correr os riscos, pagar para ver, postura que devemos assumir na vida (conhecer o “terreno”, o contexto no qual nos encontramos e apostar, nos jogar), e me impressionei pois não teria coragem de pular, ficaria travada, com medo, e essa postura se reflete em muitas outras áreas da minha vida, porém, o medo nunca me levou a lugar nenhum, já levou você? (só se for ao lugar comum da “estabilidade”, na zona de conforto, na qual se faz presente a “cautela”, para não dizer covardia).


Em suma, a conclusão que tirei: a vida é cheia de possibilidades, nós temos a dádiva mais bela (o poder nos apegarmos aos outros, nos apaixonarmos pela vida, pelos amigos, pelas pessoas) a qual nos permite desejar, porém, nessa vontade de termos o que nos faz felizes não deixamos as coisas irem e virem, ficamos presos a um desejo, e quando algo sai diferente do “script que criamos, que envolvemos de expectativa” não aceitamos os fatos, porém é com a esperança, com a sanidade, com a simplicidade e com o amor que conseguimos deixar de agir como “possuidores das coisas”, percebendo que ninguém é de ninguém, como a meditação zazen (não conheço muita coisa sobre meditação, porém, essa informação obtive com um de seus praticantes iniciantes, o qual foi capaz de me mostrar a beleza da concentração) que tenta ensinar a seus praticantes a delicadeza de não se prender em nenhum pensamento, em controlar a respiração e se concentrar no hoje, no momento meditativo, na respiração que representa a vida, o poder de decisão, mostrando que nada nos pertence, nem mesmo os pensamentos, que representam nosso desejo de controle.


Muitas vezes, temos de escolher não pelo que queremos, mas pelo alternativo, pela segunda opção, ou até mesmo por aquilo que é nosso melhor (nem sempre o que desejamos é o melhor), pelo mais difícil, “meu querer, meu dever, meu devir”, e assim como na meditação zazen somos obrigados a deixar ir, aquilo que não é nosso.


Faz parte de nossa luta diária, o exercício do auto-controle, de trazer leveza a nossa vida: é muito grande o poder da existência, não podemos desperdiçá-lo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Guia para "O Capital"



Historicamente, antes de o capitalismo se estabelecer definitivamente, havia um sistema econômico vigente, o feudalismo, cujo “regimento” permitia que os senhores feudais e os servos convivessem no mesmo feudo, no qual o servo trabalhava gerando lucros ao senhor feudal, que lhe permitia a posse de certa quantia dos lucros, e assim a sociedade caminhava.


“Nada dura para sempre”, já diz o ditado, e assim não fora diferente na história da humanidade, logo, o acordo entre senhores feudais e servos fora quebrado e “algo bom” acontecia, os servos agora estavam livres, porém, nem tudo são flores, e apesar da liberdade, nada mais possuíam (sem eira e nem beira) e se viram “obrigados” a vender o único bem que lhes pertencia, a mão-de-obra.


A partir de então se efetivou o sistema econômico que conhecemos tão bem nos dias atuais, o capitalismo, e as relações sociais e econômicas mudaram (de servos X senhores feudais para operários X proprietários dos meios de produção), assim, no dia do pagamento todos os operários recebem os salários respectivos ao trabalho fornecido, o acordo pode ser feito em relação às horas trabalhadas ou às mercadorias produzidas, de modo que: mais trabalho é mais dinheiro.


Todos nós temos necessidades (roupa, alimentação, lazer, saúde, educação, entre outros) e não é diferente com a classe operária, todavia, tais necessidades só podem ser satisfeitas mediante dinheiro, pois as mercadorias que irão supri-las pertencem aos empresários, que querem vendê-las.


A questão é: porque as coisas funcionam desta maneira? Tal fato foge da lógica mais óbvia, se os operários produziram as mercadorias, porque elas não lhes pertencem? O movimento capitalista vai contra esse raciocínio, sendo o grande mantenedor do ciclo em que está presa a classe trabalhadora: Trabalho- salário- gastos com mercadorias para suprir necessidades- novamente trabalho-... Ou seja, o trabalhador ao ter consciência que nada possui além de sua força de trabalho se vê estagnado num processo cujo objetivo é manter as relações econômicas que favoreçam o capitalismo.


Contudo, em momentos de crise econômica, as taxas de desemprego aumentam drasticamente, de maneira que muitos trabalhadores nem sequer possuem emprego, questionando se de fato o trabalhador possui sua força de trabalho, haja vista que o operário só pode concretizar sua posse caso haja efetivamente um trabalho, quando o burguês lhe oferece emprego e lhe paga um salário.


Tudo que se compra e se vende é mercadoria, e o trabalhador entra no mesmo cenário, pois para sobreviver, precisa continuamente vender sua mão-de-obra, ou seja, a única posse do trabalhador torna-se também mercadoria. De modo que a mão-de-obra passa a pertencer ao burguês (como qualquer outra mercadoria que pertence a quem a compra), pois ele a comprou no momento em que ofereceu o emprego.


Diante dessa lógica capitalista, muitos já ouviram comentários que reforçam a mentalidade de que os “operários devem ser gratos aos capitalistas”, pois estes lhes garantem o sustento, mas, o patrão apenas limita-se a dar ao trabalhador seu posto de trabalho, pois quem dá o trabalho ao empresário é o operário.

Tais relações se estabelecem porque o empresário busca o lucro e para atingir seu objetivo não paga ao trabalhador o equivalente ao trabalho executado (a soma de dinheiro igual ao valor das mercadorias produzias), mas sim o equivalente ao valor da força de trabalho.

Em suma, “nem tudo é o que parece ser”, somente aparentemente se paga ao operário, dessa maneira, percebe-se que assim como nas relações econômicas capitalistas, muitas vezes nos enganamos ao analisar certas relações sociais, pois, estando sob um dado ponto de vista (muitas vezes incompleto) não enxergamos toda a superestrutura escondida por detras dessas relações.


Desse modo, fica claro que não podemos ver as leis intrínsecas da sociedade e as leis ocultas da vida social humana de relance, é preciso mais cuidado e mais investigação, como Marx defende, ao dizer que a ciência estuda a verdade das coisas, sua natureza mais verdadeira, mais próxima do movimento real das coisas, ou seja, a ciência é quem vai além dos sentidos, do perceptível.




Assim sendo, para entender um fato social é preciso mais conhecimento, muito mais que a mera descrição do ocorrido, é necessária a análise das relações que o fato tem com o sistema.


Logo, diferentemente dos jornais que não passam de inúmeros relatos e na maioria das vezes (não podemos generalizar, apesar de ser difícil dizer qual jornal não é uma peça no quebra-cabeça do sistema capitalista, cujo objetivo é manipular) não possuem a intenção de questionar os leitores acerca dos fatos, mas apenas “informá-los” dos acontecimentos, tentando fazê-los engoli-los (goela abaixo), a ciência possui um método que busca a compreensão.


Marx é o primeiro a investir na tentativa de criar um método capaz não só de interpretar e questionar as relações sociais, mas mudá-las, e para isso escreve “O Capital”, obra que não só descreve, mas analisa todo o sistema capitalista, de maneira tão completa, que mesmo após tantos anos (143 anos, a obra fora publicada em 1867) continua a explicar com muita destreza a essência da exploração capitalista, apesar desta ter assumido múltiplas faces.

Ou seja, a forma mudou, mas, não o conteúdo, a natureza interna do capitalismo não se alterou desde a época de Marx, por isso a importância de conhecer sua obra (me desculpem pelo “favoritismo” com a obra de Marx, mas é claro que nem posso deixar de fazê-lo considerando que meu curso -Serviço Social - tem como base acadêmica o marxismo).


Enfim, assim como propõe Marx, devemos assumir nos dias de hoje uma postura semelhante, para melhor julgarmos o momento em que vive nossa sociedade e para também vivermos melhor, pois entendendo a ideologia vigente saberemos distinguir nossos sonhos dos sonhos que compramos do sistema, rompendo o ciclo capitalista de nossas vidas, logicamente nos tornando mais livres, não 100%, porque é impossível, segundo o marxismo somente numa outra sociedade, cujo sistema econômico não é o capitalismo, porém, essa é outra discussão.



Fico por aqui, beijos.



OBS: "Trabalhadores do mundo uni-vos, vós não tendes nada a perder a não ser vossos grilhões”.