
Alguns dias sem escrever (quase uma eternidade para mim, acho que até perdi a prática, aquela que ainda nem ganhei) e muita coisa para contar. Assim, hoje, gostaria de escrever um texto sincero, mais verdadeiro (como um daqueles textos “inspiração”, que escrevemos de uma só vez).
Os últimos dias foram intensos (como num filme cuja história do personagem principal muda drasticamente numa cena), viajei para Pirenópolis ("Cidade dos Pireneus", município histórico do estado de Goiás), e lá encontrei: cachoeiras, profundidade, meus medos, “salve geral”, amigos antigos, o céu mais estrelado, limpo e lindo dos últimos tempos, música de raíz (algo meio afro, estilo Olodum, muito tambor, batucada), viagem gostosa, bonita paisagem e muita intimidade.
Nesses dias, percebi que cada um tem sua história e é justamente na convivência que nos aproximamos de verdade das pessoas, para então sermos capazes de senti-las, de modo que mais do que tudo na vida devemos nos abrir para ela, por mais clichê que seja: “o caminho só existe quando você passa”.
De fato, o caminho a ser trilhado não existe no futuro nem no passado, mas no tempo, pois é no tempo real, no hoje, que a vida acontece, é nele que definimos a trilha, obstáculos estarão presentes (realizações e frustrações), porém, a fé é necessária, não me refiro à fé católica (a qual almejo tanto), mas àquela que é a esperança, a qual nos move, nos faz acreditar no amanhã, ela não é utópica, mas, é capaz de nos fazer sonhar novamente após a desilusão, nos faz desejar sempre a felicidade, por mais que a tristeza se faça presente, é a fé que não é ausente nem no suicida, exemplo maior de “desesperança” (seguindo a teoria de que o suicida se mata para se livrar do sofrimento, por não encontrar nenhuma saída palpável, ou seja, ele perdeu a esperança naquilo que é “prático” e crê na esperança mais sombria de todas, mas ainda crê).
Enfim, a reflexão acerca do caminho x construção da vida me veio nos últimos dias, pois como na análise simples, porém, de certa forma, profunda do filme “sim, senhor” (filme que reflete sobre as oportunidades que perdemos ao dizer não e as possibilidades que ganhamos ao dizer sim, ao irmos contra nossa resistência natural ao desconhecido), a minha postura diante da vida tem sido em direção ao exercício de arriscar, e a viagem representou essa aposta, pois sem saber como seria (chata ou muito divertida) a enfrentei.
Dessa maneira, tive uma das melhores experiências da minha vida, haja vista que ali, passando por cima dos imprevistos, dei o meu melhor, tentei deixar toda energia negativa nas cachoeiras, como todas que estavam comigo, pois cada uma tinha um “problema” em Brasília que gostaria que não existisse (como era impossível, tentamos esquecê-lo ao menos por alguns dias), e assim o foi.
Em “piri” vimos vários exemplos de simplicidade entre seus cidadãos, exemplos de quem tenta ganhar a vida, criando oportunidades (vendedores de pulseiras, bugigangas, porteiros), nos mostrando quão alienados somos ao desejarmos status que não nos farão mais felizes, todavia, a situação que mais me chamou atenção foi aquela que me “colocou na parede”, via alguns pulando a cachoeira (correndo o risco – por mínimo que seja- de baterem em alguma pedra, mesmo sendo conhecedores do local) e me admirava muito essa coragem, de se jogar, correr os riscos, pagar para ver, postura que devemos assumir na vida (conhecer o “terreno”, o contexto no qual nos encontramos e apostar, nos jogar), e me impressionei pois não teria coragem de pular, ficaria travada, com medo, e essa postura se reflete em muitas outras áreas da minha vida, porém, o medo nunca me levou a lugar nenhum, já levou você? (só se for ao lugar comum da “estabilidade”, na zona de conforto, na qual se faz presente a “cautela”, para não dizer covardia).
Em suma, a conclusão que tirei: a vida é cheia de possibilidades, nós temos a dádiva mais bela (o poder nos apegarmos aos outros, nos apaixonarmos pela vida, pelos amigos, pelas pessoas) a qual nos permite desejar, porém, nessa vontade de termos o que nos faz felizes não deixamos as coisas irem e virem, ficamos presos a um desejo, e quando algo sai diferente do “script que criamos, que envolvemos de expectativa” não aceitamos os fatos, porém é com a esperança, com a sanidade, com a simplicidade e com o amor que conseguimos deixar de agir como “possuidores das coisas”, percebendo que ninguém é de ninguém, como a meditação zazen (não conheço muita coisa sobre meditação, porém, essa informação obtive com um de seus praticantes iniciantes, o qual foi capaz de me mostrar a beleza da concentração) que tenta ensinar a seus praticantes a delicadeza de não se prender em nenhum pensamento, em controlar a respiração e se concentrar no hoje, no momento meditativo, na respiração que representa a vida, o poder de decisão, mostrando que nada nos pertence, nem mesmo os pensamentos, que representam nosso desejo de controle.
Muitas vezes, temos de escolher não pelo que queremos, mas pelo alternativo, pela segunda opção, ou até mesmo por aquilo que é nosso melhor (nem sempre o que desejamos é o melhor), pelo mais difícil, “meu querer, meu dever, meu devir”, e assim como na meditação zazen somos obrigados a deixar ir, aquilo que não é nosso.
Faz parte de nossa luta diária, o exercício do auto-controle, de trazer leveza a nossa vida: é muito grande o poder da existência, não podemos desperdiçá-lo.

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