
Historicamente, antes de o capitalismo se estabelecer definitivamente, havia um sistema econômico vigente, o feudalismo, cujo “regimento” permitia que os senhores feudais e os servos convivessem no mesmo feudo, no qual o servo trabalhava gerando lucros ao senhor feudal, que lhe permitia a posse de certa quantia dos lucros, e assim a sociedade caminhava.
“Nada dura para sempre”, já diz o ditado, e assim não fora diferente na história da humanidade, logo, o acordo entre senhores feudais e servos fora quebrado e “algo bom” acontecia, os servos agora estavam livres, porém, nem tudo são flores, e apesar da liberdade, nada mais possuíam (sem eira e nem beira) e se viram “obrigados” a vender o único bem que lhes pertencia, a mão-de-obra.
A partir de então se efetivou o sistema econômico que conhecemos tão bem nos dias atuais, o capitalismo, e as relações sociais e econômicas mudaram (de servos X senhores feudais para operários X proprietários dos meios de produção), assim, no dia do pagamento todos os operários recebem os salários respectivos ao trabalho fornecido, o acordo pode ser feito em relação às horas trabalhadas ou às mercadorias produzidas, de modo que: mais trabalho é mais dinheiro.
Todos nós temos necessidades (roupa, alimentação, lazer, saúde, educação, entre outros) e não é diferente com a classe operária, todavia, tais necessidades só podem ser satisfeitas mediante dinheiro, pois as mercadorias que irão supri-las pertencem aos empresários, que querem vendê-las.
A questão é: porque as coisas funcionam desta maneira? Tal fato foge da lógica mais óbvia, se os operários produziram as mercadorias, porque elas não lhes pertencem? O movimento capitalista vai contra esse raciocínio, sendo o grande mantenedor do ciclo em que está presa a classe trabalhadora: Trabalho- salário- gastos com mercadorias para suprir necessidades- novamente trabalho-... Ou seja, o trabalhador ao ter consciência que nada possui além de sua força de trabalho se vê estagnado num processo cujo objetivo é manter as relações econômicas que favoreçam o capitalismo.
Contudo, em momentos de crise econômica, as taxas de desemprego aumentam drasticamente, de maneira que muitos trabalhadores nem sequer possuem emprego, questionando se de fato o trabalhador possui sua força de trabalho, haja vista que o operário só pode concretizar sua posse caso haja efetivamente um trabalho, quando o burguês lhe oferece emprego e lhe paga um salário.
Tudo que se compra e se vende é mercadoria, e o trabalhador entra no mesmo cenário, pois para sobreviver, precisa continuamente vender sua mão-de-obra, ou seja, a única posse do trabalhador torna-se também mercadoria. De modo que a mão-de-obra passa a pertencer ao burguês (como qualquer outra mercadoria que pertence a quem a compra), pois ele a comprou no momento em que ofereceu o emprego.
Diante dessa lógica capitalista, muitos já ouviram comentários que reforçam a mentalidade de que os “operários devem ser gratos aos capitalistas”, pois estes lhes garantem o sustento, mas, o patrão apenas limita-se a dar ao trabalhador seu posto de trabalho, pois quem dá o trabalho ao empresário é o operário.
Tais relações se estabelecem porque o empresário busca o lucro e para atingir seu objetivo não paga ao trabalhador o equivalente ao trabalho executado (a soma de dinheiro igual ao valor das mercadorias produzias), mas sim o equivalente ao valor da força de trabalho.
Em suma, “nem tudo é o que parece ser”, somente aparentemente se paga ao operário, dessa maneira, percebe-se que assim como nas relações econômicas capitalistas, muitas vezes nos enganamos ao analisar certas relações sociais, pois, estando sob um dado ponto de vista (muitas vezes incompleto) não enxergamos toda a superestrutura escondida por detras dessas relações.
Desse modo, fica claro que não podemos ver as leis intrínsecas da sociedade e as leis ocultas da vida social humana de relance, é preciso mais cuidado e mais investigação, como Marx defende, ao dizer que a ciência estuda a verdade das coisas, sua natureza mais verdadeira, mais próxima do movimento real das coisas, ou seja, a ciência é quem vai além dos sentidos, do perceptível.

Assim sendo, para entender um fato social é preciso mais conhecimento, muito mais que a mera descrição do ocorrido, é necessária a análise das relações que o fato tem com o sistema.
Logo, diferentemente dos jornais que não passam de inúmeros relatos e na maioria das vezes (não podemos generalizar, apesar de ser difícil dizer qual jornal não é uma peça no quebra-cabeça do sistema capitalista, cujo objetivo é manipular) não possuem a intenção de questionar os leitores acerca dos fatos, mas apenas “informá-los” dos acontecimentos, tentando fazê-los engoli-los (goela abaixo), a ciência possui um método que busca a compreensão.
Marx é o primeiro a investir na tentativa de criar um método capaz não só de interpretar e questionar as relações sociais, mas mudá-las, e para isso escreve “O Capital”, obra que não só descreve, mas analisa todo o sistema capitalista, de maneira tão completa, que mesmo após tantos anos (143 anos, a obra fora publicada em 1867) continua a explicar com muita destreza a essência da exploração capitalista, apesar desta ter assumido múltiplas faces.
Ou seja, a forma mudou, mas, não o conteúdo, a natureza interna do capitalismo não se alterou desde a época de Marx, por isso a importância de conhecer sua obra (me desculpem pelo “favoritismo” com a obra de Marx, mas é claro que nem posso deixar de fazê-lo considerando que meu curso -Serviço Social - tem como base acadêmica o marxismo).
Enfim, assim como propõe Marx, devemos assumir nos dias de hoje uma postura semelhante, para melhor julgarmos o momento em que vive nossa sociedade e para também vivermos melhor, pois entendendo a ideologia vigente saberemos distinguir nossos sonhos dos sonhos que compramos do sistema, rompendo o ciclo capitalista de nossas vidas, logicamente nos tornando mais livres, não 100%, porque é impossível, segundo o marxismo somente numa outra sociedade, cujo sistema econômico não é o capitalismo, porém, essa é outra discussão.
Fico por aqui, beijos.
OBS: "Trabalhadores do mundo uni-vos, vós não tendes nada a perder a não ser vossos grilhões”.

ilustra muito bem a mais valia, excelente texto!
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