Amanda Fontenelli

"Eis-me aqui, ora pela metade ou em descoberta, uma tentativa, simples assim.. "




quarta-feira, 28 de abril de 2010

Primeira Estória

Simples, com ela era simples, tudo se desmanchava ao vivenciar a naturalidade com que lidava com a vida, com as coisas, com o mundo. Nada poderia ser impossível, irrealizável ou ruim, só de olhá-la nos olhos, tudo se apascentava.

Seis da matina, o despertador simples, em forma de coração, com alguma frase romântica escrita em seu interior, junto às horas, simples, de pilha, desses vagabundinhos que encontramos em lojinhas de rodoviárias para vender, a despertou, com uma música clássica, romântica, Für Elise, de Beethoven, lembrando-a que mais um dia começava, e que ela deveria agir como se fosse de propósito, não como conseqüência da sucessão contínua de dias.

Abriu os olhos, pensou no longo dia que teria pela frente, abriu as cortinas, se deparou com a pequena janela que visualizava a rua inteira, o quarto saía do clima penumbra e ficava, agora, visível, com uma aparência mais compatível com o dia que a esperava, mais enérgico, mais vívido, o sol já estava razoavelmente forte, pegou a roupa em cima da cadeira ao lado da cama de solteiro em que dormia, já havia preparado a roupa que teria de usar, na noite anterior, e foi para o banheiro.

Acendeu a luz, uma única lâmpada, que tinha para si a responsabilidade de iluminar o banheiro todo, sozinha, sem querer, meio de repente, com a automaticidade daquela cena, daquela vida, daquela rotina, se perdeu nos pensamentos, como sempre acontecia, quando se deixava levar, como um robô, programado para fazer dadas atividades sem questioná-las, lembrou-se de sua infância, da casa da avó, do cheiro do pai, das palmas da mão do irmão, que tinha uma pequena cicatriz, fruto de uma queda do pé de manga, a favorita para as estripulias das crianças do bairro, lembrou do purê de batata da mãe, da professora idosa que teve na primeira série, lembrou-se de quem era, dos sonhos, das vontades, dos apelidos, “meleca, meleca, rebeca é uma marreca”, riu de si mesma, aquilo nem se quer fazia sentido, mas a irritava e magoava, quando criança, ouvir aquelas meninas, as quais nunca foram suas amigas, mas que ela desejava ardentemente tê-las como colegas, com carinho, mas o máximo que lhe davam: risinhos, cochichos, apelidos, enfim, tudo que nenhuma criança gostaria de receber, assim, gratuitamente, por ser quem se é.

No meio daquela nostalgia, das memória de uma vida, se surpreendeu ao ver que já estava embaixo do chuveiro, daquela água gostosa, morna, mais para fria, a qual acordava seus sentidos, sua personalidade, sua energia, seu ser, lhe garantindo que, de alguma forma, aquilo tudo fazia sentido e que as coisas eram daquela forma porque tinham que ser, o que não era motivo para torná-la infeliz, mas, guerreira, agradecida, com uma fé mais bela, trazida da dificuldade, da disciplina de moldar seus sentimentos, suas revoltas, seus questionamentos, para viver melhor, se justificava.

Lavou o corpo, passou o sabonete rosa em seu corpo moreno, negro, marca da senzala, como dizia sua bisavó: “menina, um dia você vai ver, que por maior que seja sua luta, você carregará essa cor, porque seu corpo, seu ser, é a história da senzala”, contornou a própria panturrilha ao ensaboá-la, lavou suas cochas, depois a barriga, os braços, para em seguida, deixar a água lavar o seu corpo (“essa água podia me lavar,lavar minha alma”, pensou ela, “de repente, eu podia até sair desse banho outra pessoa, melhor, mais cheia de vida, se Deus quisesse até podia me fazer renascer, mudar tudo só com esse banho, me dar outra vida, outro emprego, mudar de nome, tudo, me dar outro cotidiano”), o cheiro do sabonete, o aroma de seu banho, já havia tomado conta de seus sentidos, lhe dando aquela sensação de prazer, de limpeza, de “bom dia”, lembrou do xampu novo que comprara semana passada, segundo a dona Jacira, dona do salão que freqüentava, ia dar brilho e força para os fios do cabelo, assim, quem sabe, podia até convencer seu noivo a marcar a data do casamento, há 6 anos, o infeliz a enrolava, “deixa o patrão ver meu talento, Rebeca, você vai ver, ano que vem, vai ter promoção e é minha chance, e aí, te dou casa e roupa lavada, até paro de trabalhar nos finais de semana”, se defendia sempre que o pressionava.

Arrumada, sapatilha branca, meias brancas, vestido rosa claro, avental, o cabelo longo amarrado num rabo de cavalo, perfumada, batom nos lábios, unhas das mãos feitas, “mãos limpas, aparência de limpeza, cara lavada, escutou?”, lembrou-se da patroa falando, e pronto, agora, o dia, de fato, começava.

Saiu do DCE, o cubículo que sua patroa se referia como “a suíte de sua secretária” ao falar com suas amigas, foi para a cozinha, ligou o rádio em sua estação preferida, e o dia continuava, novamente e como tinha de ser, como é a vida, com a alegria de ser daquela menina-mulher, tinha mil tarefas a cumprir, mas era feliz, era quem podia ser, era ela mesma, depois se desculpou em pensamento, enquanto coava o café, “Deus, não precisa me dar outra vida, nem mudar quem sou, eu sou feliz assim, só peço uma coisinha, convence a Dona Lúcia (patroa) a me dar aquela televisão que o Junior (filho mais novo da patroa, 12 anos) falou que era velha, para colocar no meu cantinho?”, em seguida, preparou o café da manhã...

Ps1: Obrigada pela leitura.
Ps2: Se você conhece alguém (ou é esse alguém) que saiba criar, renovar, customizar o fundo do blog, o template, me avise.

terça-feira, 20 de abril de 2010

"Faz o que for justo. O resto virá por si só." Goethe

No Direito Constitucional há toda uma discussão acerca das ‘constituições’, sobre a constituição jurídica (escrita) e a constituição real (realidade), acerca da prevalência de uma sobre a outra, ou seja, tendo em vista o conflito entre a realidade e o estabelecido nas normas constitucionais, quem vence?

Há momentos (maioria deles), na práxis da sociedade, em que os fatores reais de poder, poder social, político, econômico, entre outros (“A essência da Constituição”, Ferdinand Lassale), de fato, prevalecem sobre a Constituição, exemplos são vistos diariamente, toda vez em que a lei se submete ao “jeitinho brasileiro” de resolver as coisas, toda vez que um político corrupto sai impune, toda vez que aquele “subornozinho”, o famoso dinheirinho guardado na documentação do carro, vence no lugar da multa devida, enfim, toda vez em que os fatores de poder vencem as normas constitucionais, observa-se que o “ser” prevalece sobre o “dever ser”.

Todavia, nós temos a mania, o hábito hipócrita, de criticarmos, colocarmos esta situação longe de nosso poder de atuação, como se fosse um problema alheio, como as histórias que ouvimos sobre aquele parente distante e sobre as quais fofocamos quase incansavelmente, ou seja, assumimos uma postura de isenção de culpa, dando a nós mesmos o papel do “cidadão livre de qualquer responsabilidade e culpa” sobre o contexto político de nosso país: “A culpa é desse bando de pobre do entorno, que vende seus votos por conta de um lote onde Judas perdeu as botas, porque acham tal deputado bonito, bláblá..”, é o que mais ouço argumentarem sobre como e porque nossa política chegou onde está.

Desse modo, perpetuamos a comodidade que assumimos nos períodos de eleição, falamos mal de todos os deputados, mantemo-nos naquele velho lugar comum, deleitamo-nos no prazer em falar mal por falar mal, em ver a estrutura perpetuar-se, estender-se por anos, pois mudar gasta mais energia né? Até nas teorias da Física vemos que a tendência natural das coisas é o caos, é a economia de energia, e conosco não é diferente, votamos sem consciência, temos memória curta, acreditamos no “ele rouba, porém, faz” e muito mais, assim como, destruímos os recursos da constituição jurídica em se fazer valer.

Mas calma, ainda há solução, haja vista que a Constituição existe e se relaciona com a realidade e não é totalmente determinada por ela, pois carrega em si a vontade de ser eficaz, e essa vontade é legítima, pois, reconhecemos a “folha de papel” conhecida como “lei fundamental”, reconhecemos sua vontade de se fazer real e seu poder de mudar a realidade, assim, já que instituímos a democracia que “desejamos”, devemos parar de boicotá-la, já que ao assumirmos uma postura distante da política, alheia aos acontecimentos que regem nosso dia-dia, estaremos proibindo-a de atingir seu potencial e resultar naquilo que há muito tempo queremos.

Em suma, devemos parar de gerar conflitos entre o escrito e o real, deixar o ‘dever ser’ no plano prático ao invés do teórico, tornar o ‘ser’ das coisas mais justo, mais democrático e menos hipócrita, tornando-o mais parecido com o que está escrito nas normas constitucionais.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O túmulo está vazio.



A Páscoa passou no calendário, todavia, permanece em nossas vidas, sendo “Páscoa” “passagem”, estamos sempre de passagem, a vida terrena é uma passagem, e aí, entram as crenças de cada um, passagem para algo melhor, passagem para outra vida, mais desenvolvida e diferente da experiência anterior, passagem para o nada, para o finito e pronto, e para mim, passagem para a vida eterna.


Experimentei (tive a benção/sorte/graça de vivenciar) uma semana santa diferente, repleta de pessoas ávidas por viver A Verdade, descobrir O Sentido das coisas, resolver cada empecilho presente em suas vidas, os quais as impediam de viver plenamente, problemas que para elas (ao sairmos de Brasília, na quarta-feira, rumo à São Paulo) era insolúvel, na volta (domingo) ou estava prestes a ser solucionado ou já fora resolvido, mas principalmente, desejavam viver em Cristo (ao menos durante aquela semana).


Dessa maneira, eu também passei os dias do “feriadão”, refletindo sobre cada detalhe que compõe a minha vida, sobre cada parte que compõe o mosaico do meu dia-dia, mas principalmente, pude enxergar o Caleidoscópio que sou, a importância de cada mínima parte do meu ser, cada característica que me torna essa criatura, esse ser tão “humano”, o qual, a partir de cada mínima composição, varia, se diferencia, se transforma, sofre metamorfose, sob cada ótica que vou assumindo ao girar o caleidoscópio.


Assim, parei de criar hierarquias em minha vida, colocar em ordem de importância cada parte que compõe meu ser, pois todas as partes são únicas, não podendo ser analisadas sob uma ótica valorativa, haja vista que todas devem ser postas no mesmo pedestal.


Logo, ao sermos (eu e você) seres tão complexos jamais poderíamos permitir (apesar de não só permitirmos, como defendermos e propagarmos) a redução do nosso ser à mera disputa, ao status, às nossas atividades diárias, ao egoísmo, ao que possuímos, ao que pensamos, à beleza e ao nosso intelecto (sim, porque a beleza passa, o tempo corre e “acidentes” acontecem, roubando toda “arte” e com intelecto não é diferente, surgem novos “gênios”, a idade chega, junto com as doenças, falta de memória, etc), às pessoas que fazem parte de nossas vidas, chega um momento em nossa trajetória pessoal, em que nos deparamos com o vazio, o vazio de nossas conquistas, o vazio do ser que nos tornamos, o vazio do mundo, e desejamos mais, desejamos mais que momentos de felicidades, de paz, desejamos a plenitude das coisas.


E o mais incrível que pude constatar durante esses dias: cada pessoa possui dons inatos tão belos, cada um possui uma história de vida que não poderia ter sido diferente, apesar dos erros e das dificuldades, pois caso contrário, impediria cada um de ser o que é, logo, geras as conseqüências que gera na vida alheia. Ou seja, o que torna a vida bela é o que fazemos com os presentes que ela nos oferece, a vida é possibilidade, é “infinitude”, assim, o que devemos questionar é a postura de vida, a Vida em Cristo ensina a aceitação e não a reação como o mundo propõe, a filosofia atual nos pede para reagirmos, sermos firmes com as pessoas e com as coisas, sermos enérgicos ao conquistarmos nossos objetivos, porém, Deus nos fala de outra esfera de atitudes (a qual para o mundo seria um modo de aceitar os fracassos, o modo como os perdedores escolhem para conseguir viver, aceitar todas suas perdas), repleta de renúncia.


Renunciar é abrir mão de nossas vontades, exercitando o ato de “sair de si mesmo”, ser flexível diante da vida, pois, todos nós, em algum momento, tivemos que nos dobrar diante das circunstâncias, mas, essa resignação não é só aceitar e pronto, é ver que não podemos ser mimados, acreditar que tudo podemos exigir e que temos o direito de sermos escutados sempre, termos amigos disponíveis a todo o momento, sucesso constantemente, é literalmente, reconhecer antes de si mesmo, o outro.


Dessa maneira, independente de sua religião ou crença pessoal, é sempre importante (e eu garanto, traz um “bem danado”) nos renovarmos, tirarmos do armário o que há de velho, tirar de nossas vidas o velho, modificarmos os nossos “velhos defeitos”, começarmos a dedicar tempo (um bom tempo, razoável tempo do nosso cotidiano) à vida espiritual, à reflexão, para sermos, não só diferentes a cada etapa da vida, mas melhores, pois deixamos os maus hábitos no passado, a fim de conquistarmos outros mais saudáveis.

“Era tarde da noite, porém, ainda era cedo. Nunca é tarde para mudar.”