Amanda Fontenelli

"Eis-me aqui, ora pela metade ou em descoberta, uma tentativa, simples assim.. "




sábado, 20 de março de 2010

“Pra falar a verdade, às vezes minto tentando ser metade do inteiro que eu sinto” Teatro Mágico

De época em época, em cada período histórico, observamos diferentes tipos de literatura, filmes, peças de teatro, arte, cada qual com uma nova estrutura, finalidade, conteúdo e até um público único.

Desse modo, podemos observar, de maneira clara, a forma como os romances se desenvolveram, desde os típicos folhetins aos dramas atuais, cada vez mais densos. Nas aulas básicas de literatura do ensino médio, estudávamos as mudanças ocorridas na estrutura dos personagens, os quais saíam do “caráter” plano para o esférico, o que era considerado um avanço, pois, cada vez mais, os personagens se tornavam mais completos.

Na “vida real” não é diferente, com o passar dos anos, quando vamos alcançando maior maturidade, mais experiência, percebemos que as pessoas são mais complexas e mais densas, de modo que as análises simplistas se tornam pouco eficientes para entendermos as atitudes alheias, os fatos da vida, os acasos e principalmente a essência do outro.

Eu, como uma típica noveleira, enquanto assistia à novela “viver a vida” me dei conta de que apesar dos clichês repetidos a cada novo enredo do horário nobre, cada drama me mostra que de fato “a arte imita a vida”, pois os típicos “novelões” são a ilustração dos nossos desejos, da nossa realidade, de nosso cotidiano, e apesar de, às vezes, serem inocentes, simplórios nas tramas entre os personagens, tentam nos mostrar a possibilidade da vida, mostrar uma moral melhor, nem que reine no eterno: “ felizes para sempre” e na vitória do bem sobre o mal.

Enfim, nossos parâmetros vão mudando ao longo do tempo, nos tornando mais capazes de admirar as pessoas (de modo mais completo), pois, reconhecendo suas inúmeras vertentes, suas inúmeras faces, seus inúmeros desejos, atitudes (muitas vezes contraditórias), e o mais difícil, percebemos então que a vida é descontínua, não possui linearidade, a cada fato novo, “estamos processando os dados” e tudo se torna possível.

Assim, passamos a nos portar e nos aceitar como “personagens esféricos”, cheios de defeitos e qualidades, haja vista que paramos de nos reduzir a meros corpos, cérebros e status, exigindo dos outros o reconhecimento total do nosso ser, de modo que nossas relações se estabeleçam sob a verdade (quem somos verdadeiramente).

Partindo dessa lógica, lembrei da peça escrita por Aristófones, na Idade Antiga, “Lisístrata - A greve do Sexo” [http://www.ufrgs.br/proin/versao_1/greve/index01.html], a qual narra a luta das mulheres em se fazerem reconhecer como algo além de mero objeto sexual masculino, sendo um marco na história dos personagens femininos, pois ali, as mulheres ganham “cérebro” e “alma”, passam a interferir no rumo da história, o que nos apresenta o fato: antes do reconhecimento de nossa complexidade pelo outro, é necessário o nosso auto-posicionamento acerca de nossa densa trajetória e composição, como a personagem principal faz, cortando tudo que é desnecessário e assumindo roteiros autênticos, pois pautamos nosso perfil psicológico e emocional, no que há de mais belo, o nosso palco pessoal, nossa vida, aquela cuja responsabilidade é intransferível.

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